quinta-feira, 20 de julho de 2017

Formação Continuada

CEI investe no diálogo entre educadores para implementar formação continuada
 
Garantir a formação continuada de professores, diretores, coordenadores pedagógicos e funcionários de uma escola não é tarefa simples.

Para a Liga Solidária, organização sem fins lucrativos que desenvolve programas socioeducativos e de cidadania, esse encargo é ainda mais desafiante. Multiplica-se por nove — número de Centros de Educação Infantil (CEI) sob sua gestão.
 
A solução encontrada para tocar o processo, no entanto, relaciona-se menos com a lógica matemática e mais com o lado humano.

Das palavras usadas por Patricia Nunes Silva, pedagoga responsável pela formação continuada, “troca” é a que mais sobressai e define seu trabalho. “Não estou sozinha neste processo, tenho todo um suporte por trás. Estou junto com as educadoras e a Neide Cavalcante e a Aline Matas, que administram todos os CEIs. Eu só apoio estas trocas”, diz.

Creches conveniadas

As creches conveniadas prestam contas à Prefeitura de São Paulo sobre seus processos político-pedagógicos, administrativos e financeiros.

Com base em sua experiência como docente, Patricia organiza formações com as equipes de três formas diferentes: levando os educadores para congressos, workshops ou palestras, trazendo especialistas até as unidades para conversar e, por fim, ela própria discute e aplica questões teóricas no cotidiano escolar.

“Sempre tento trazer olhares diferentes para os educadores refletirem e inovarem em suas práticas. Quero que sejam autores, e não reprodutores, para que o processo educativo seja focado e crítico. Do contrário, só estaremos dividindo o espaço com as crianças e [a Educação Infantil] é mais do que isso”, explica.

Para tanto, visita as unidades e observa, a partir de uma perspectiva pedagógica, se o direito de aprender, brincar e interagir das crianças está sendo garantido. “Meu papel é acolher, mas também avaliar e ter rigor, plano formativo, metas e planejamento. Todo mundo vem aqui para dar o seu melhor, mas isso precisa estar de acordo com o contexto”.
Área para brincar e praticar esportes no Educandário Dom Duarte

Crédito: Ingrid Matuoka

Para cada unidade de CEI, Patricia dedica dois encontros mensais de 4 horas, tempo em que observa o que está funcionando, o que precisa melhorar e as necessidades individuais de cada coordenador, professor e aluno. Além disso, mensalmente, as nove coordenadoras se encontram para trocar experiências.

Há ainda a documentação das atividades e processos que são realizados, com a finalidade de manter a continuidade dos trabalhos para a próxima etapa educacional das crianças, evitar a repetição de atividades e permitir a troca entre as unidades. A proposta é que as crianças sejam sempre expostas a novidades que permitam trabalhar novas habilidades e conhecimentos.

“Todos são educadores quando estão em uma escola e precisam saber acolher”, diz a pedagoga Patricia Nunes

A pedagoga também explica que os demais funcionários dos CEIs — como cozinheiras e equipes de limpeza e apoio – passam pela formação. “Todos são educadores quando estão em uma escola e precisam saber acolher e ter sensibilidade”, diz.

A formação continuada em prática

O CEI João de Barro é uma das nove unidades de Educação Infantil da Liga Solidária e uma das seis que ficam no Complexo Educacional Educandário Dom Duarte, localizado no Jardim Esmeralda, na periferia da cidade de São Paulo.

O Educandário une os CEIs e outros programas socioeducativos em uma extensa área verde, repleta de espaços amplos para crianças e adolescentes brincarem e aprenderem. São, no total, 1360 crianças matriculadas.

Thais Rosa é a coordenadora pedagógica do CEI João de Barro desde 2014, onde trabalham 13 professoras, e afirma que a formação continuada é essencial. “A educação que eu tive anos atrás não é mais a mesma de hoje. Preciso entender quem são essas crianças e como elas aprendem agora”, diz.
Parceria: Lígia, Patricia e Thais caminham lado a lado

Crédito: Ingrid Matuoka
É no diálogo entre formadora e coordenadora que descobrem as dificuldades e necessidades, realizam planejamentos e sistematizam práticas. Além disso, discutem o perfil dos professores, das crianças e se o que estão desenvolvendo tem sentido e relação com a família e com a comunidade.

Neste tratamento, prevalece o respeito e a confiança. “Quando me aproximo das professoras, me aproximo também das crianças”, conta Patricia. “E então elas conseguem trazer suas dificuldades. Sentem confiança para continuar desenvolvendo o que sempre fizeram, com a bagagem que já têm”.

Por parte de Thais, essa abordagem faz toda a diferença. “A Patricia não vem aqui para supervisionar, apontar o que está errado e ir embora. Ela traz estratégias de como melhorarmos o nosso trabalho juntas”.

Lígia Mandu da Silva, uma das professoras do CEI João de Barro, conta que Thais participa de todos os planejamentos semanais de atividades das professoras, e que Patricia nunca foi uma figura ameaçadora. Essa proximidade faz com que ela se sinta à vontade para buscá-las quando encontra dificuldades. “Aqui, elas me veem como profissional. Aqui, eu realmente sou professora”, diz.
 
FONTE: http://educacaointegral.org.br

OPINIÃO

Mais escolas?
 

Em uma dinâmica de grupo, um candidato levanta a mão e pergunta: "posso ir ao banheiro?" Pensei: por que alguém tem esse comportamento tanto tempo após a formação no colégio? A metodologia educacional que temos no Brasil (região da Alemanha e Polônia) foi criada na Prússia em 1806.

O Estado assumia a educação para criar soldados e cidadãos obedientes, por isso a escola foi estruturada da maneira como conhecemos. Isso também explica a estrutura hierárquica de comando, a divisão com pessoas da mesma idade e conteúdo definido pelo Estado.

Após dois séculos, tudo evoluiu, mas o sistema de educação, não. Com tanta tecnologia e quantidade de informação, não é estranho que crianças e jovens sejam diagnosticados com TDAH? Eles são estimulados da maneira correta?

Este modelo de educação supervaloriza alguns conhecimentos, não oferta a pluralidade de ideias, instiga a decoreba e a comunicação com emissor e receptor, quando todos somos produtores e interlocutores de informação. Isso resulta em profissionais com deficiências básicas de conhecimento e jovens mais desinteressados nos estudos.

Não são as escolas atuais que vão formar pessoas questionadoras e capazes de fazer boas escolhas. A tecnologia traz possibilidades com salas de aula globais online e variados conteúdos e maneiras de aprendizado, tudo de graça, além de permitir aulas mais atraentes e dinâmicas. Após entender isso, percebi que o sistema é eficiente, se considerar seu objetivo inicial. Deveria ter me espantado com quem contratei: pessoas sem medo de arriscar e cheias de sonhos. Esse é o verdadeiro choque.

Mateus Azevedo
Empresário
 
FONTE: http://diariodonordeste.verdesmares.com.br

Três projetos inovadores de leitura no Fundamental 1


 
 Caixas de leituras: estratégia eficaz no incentivo à leitura. Foto: Mara Mansani

Em junho, contei a vocês sobre a experiência de estágio diferenciado em minha escola, E.E. Professora Laila Galep Sacker, em Sorocaba/SP. Como já disse, a maioria de nossos estagiários são estudantes de Pedagogia da Universidade de Sorocaba (Uniso). Nessa proposta de estágio, há participação efetiva e comprometimento de todos. Isso proporciona muita aprendizagem em uma parceria onde todos só têm a ganhar: os estagiários, os professores, os alunos e a escola como um todo.

Mas, como já disse no outro post, essa parceria entre Universidade e escola vai muito além do estágio. Os alunos de Pedagogia, orientados pela professora mestre Ana Paula Germanos, transformam a teoria aprendida na academia em práticas educativas, que são vivenciadas em minha escola e em outras da rede pública da cidade, todas do Ensino Fundamental 1.

Eles desenvolvem projetos inovadores nas áreas de Língua Portuguesa, onde o foco é o incentivo à leitura, e em Ciências, onde são explorados temas que fazem parte do conteúdo do 3º ao 5º ano. Dessa forma, esses estagiários vão experimentando, desde já, as diversas possibilidades de aprendizagem que as práticas educativas inovadoras proporcionam. Com certeza, isso impactará positivamente na formação de um profissional mais qualificado.

Nos tópicos a seguir eu explico um pouco os projetos que são feitos pelos estudantes de Pedagogia, e que também podem ser realizados por vocês, queridos professores:

As caixas que contam histórias

Os estagiários, no componente "alfabetização e letramento", criam caixas temáticas, explorando a história de algum livro de literatura infantil. Para isso, constroem cenários (como os que aparecem na primeira foto deste post), personagens e outros elementos que fazem parte da história, utilizando até materiais recicláveis.

Tudo fica dentro da caixa, como um tesouro a ser descoberto durante a leitura. Então, ao ler o livro para as crianças, os estagiários contam com a caixa para dar vida à história, com uma dinâmica que encanta a todos.

Com essa maneira diferenciada de se explorar a leitura, todos têm maior compreensão da história, e vão criando gosto pela leitura. Alguns livros que antes não eram muito valorizados pelas crianças entraram para a lista dos mais lidos em sala de aula depois da dinâmica.

As caixas apresentadas para meus alunos eram lindas, criativas e muito bem exploradas pelos estagiários. Eles têm a clareza da importância da leitura na alfabetização e em todas as outras fases de aprendizagem. Ao final da leitura dos livros, eles permitiram as crianças o manuseio dos componentes e cenários. Meus alunos adoraram! Fiquei pensando: “por que não pensei isso antes”.

Jogos temáticos de Ciências

Neste projeto, os estagiários criam e oferecem aos alunos jogos educativos que exploram temas relacionados ao conteúdo de Ciências, como: os seres vivos, uso consciente dos recursos naturais, entre outros.

Os jogos podem ser de trilhas a serem percorridas, ou de perguntas e respostas, etc. Os alunos formam grupos e participam de um circuito com diversos jogos. Vão aprendendo de forma lúdica e prazerosa, compreendendo e refletindo sobre temas tão importantes de uma forma diferente, todos na quadra esportiva da escola. E como os alunos gostam! Ninguém quer parar de jogar.

Biblioteca dos sonhos

Esse projeto tem como objetivo incentivar a leitura, oferecendo espaços diferenciados e lúdicos para a atividade nas escolas.

Os alunos de Pedagogia, no componente "práticas de alfabetização", realizam verdadeiras transformações dos espaços de leitura em escolas públicas, instituições e ONGs.

Eles fazem visitas para conhecer esses espaços, depois elaboram um plano de trabalho e depois voltam ao ambiente com ideias e materiais como tapetes, almofadas, pinturas na parede, etc, para transformá-lo em um espaço confortável, encantador e principalmente propício a leitura.

Muitas vezes eles criam espaços onde não há livros disponíveis, e também fazem campanhas para arrecadação de livros, gibis e materiais para compor o espaço. A cada inauguração, muita emoção e agradecimento. Projeto lindo e ambicioso! Estagiários engajados na construção de uma educação de qualidade.
 
  
Espaço de leitura transformado por estagiários de pedagogia.
 Foto: Mara Mansani

Esses projetos mostram que o papel da Universidade nos cursos de Pedagogia vai muito além da formação nas salas de aula, e que o saber científico e teórico encontra terreno fértil para exercitar suas práticas nas escolas e na comunidade. A parceria entre escola e Universidade merece ser valorizada.

Espero que tenham gostado das experiências que relatei e que elas possam inspirar a todos vocês! Mas se em sua escola já estão acontecendo práticas como essas, conte-nos aqui nos comentários!

Um grande abraço, um bom recesso, boas férias para quem conseguiu o merecido descanso! Até a próxima segunda-feira!

POR: Mara Mansani

FONTE: https://novaescola.org.br

Nosso problema com a matemática

A segunda prova da Olimpíada Internacional de Matemática (IMO, na sigla em inglês) começa daqui a pouco no Rio de Janeiro. Embora exija apenas conhecimentos elementares, acessíveis a quem domine o programa do ensino médio, é uma prova dificílima, feita por pouco mais de 600 alunos de cento e poucos países (na foto, a equipe do Brasil). É uma conquista para a matemática brasileira, que recebe o evento pela primeira vez, parte do progresso no país daquela que o alemão Karl Gauss considerava “a rainha das ciências”.

O Brasil também abrigará ano que vem, pela primeira vez no Hemisfério Sul, o Congresso Internacional de Matemática. O brasileiro Artur Ávila ganhou três anos atrás o mais importante prêmio da área, a medalha Fields. O percentual de trabalhos acadêmicos de matemática com autoria brasileira subiu de 0,5% para 2,1% entre 1985 e 2015.

As competições anuais de matemática realizadas no Brasil mobilizam um total estimado em 18 milhões de alunos – as principais são a Olimpíada Brasileira de Matemática e a Olimpíada Brasileira de Matemática das Escolas Públicas. Elas têm incentivado o aprendizado e o gosto por uma matéria que muitos ainda insistem em ver como bicho-papão.

Graças a tais iniciativas, conseguimos melhorar nossa participação em competições internacionais como a IMO – ficamos em 15º lugar entre 109 países no ano passado, a melhor posição relativa já atingida. Levar as competições aos alunos de escolas públicas fez florescer talentos que antes jamais germinariam.

Ainda assim, o conhecimento do brasileiro médio em matemática continua sofrível. O analfabetismo em matemática (tema que já analisei em colunas aqui e aqui) é uma chaga que prejudica a qualidade da nossa discussão política, torna o país refém de todo tipo de populismo e nos condena a um modorrento provincianismo intelectual.

Persistem, entre brasileiros, o preconceito e a resistência cultural a um ramo do conhecimento essencial para a sociedade e a economia modernas. Ninguém sai por aí dizendo que “tem horror a frases”. Mas quantos não têm medo de confessar, até com uma ponta de orgulho, que “não têm jeito para números”? Pega até bem…

Não se trata de um problema restrito à população pobre ou à que não teve acesso a ensino de qualidade. O analfabetismo em matemática atinge todas as classes sociais de modo indistinto. Está presente diariamente na imprensa, nas reuniões do escalão mais alto das empresas e nos mais graduados postos de governo. Não impede ninguém de candidatar-se, nem de ser eleito, nem de ter sucesso nas maioria das profissões.

Barbaridades matemáticas, raciocínios falaciosos, comparações despropositadas e atentados à lógica são convidados de honra das páginas dos jornais. Mas, ao contrário do que ocorreu no universo das notícias falsas, ainda não surgiram “agências de checagem” para apontar as falácias e os erros crassos de matemática. Isso nem sequer chega a ser cogitado.

“Fico angustiado com uma sociedade que depende tão completamente de matemática e ciência e, contudo, parece tão indiferente ao analfabetismo matemático ou científico de tantos cidadãos”, escreve o matemático John Allen Paulos no livro Analfabetismo matemático e suas consequências, publicado nos anos 1980 e, infelizmente, ainda atual.

Minha experiência pessoal é semelhante. Debater o assunto nas redações ou nas redes sociais sempre foi fonte de frustração. Persiste a noção absurda de que a matemática nos afasta de algum componente “humano” abstrato, ao conferir um caráter preciso e concreto às discussões. Há ainda interpretações estapafúrdias, que tentam conferir ao tema um caráter ideológico, como se o teorema de Pitágoras pudesse ser de esquerda ou direita.

A meta, evidentemente, não deve ser levar todo brasileiro a resolver os problemas da IMO. Alfabetizá-los em matemática é bem mais simples. Envolve tão-somente noções de ordem de grandeza, proporção e percentuais, probabilidade e estatística, lógica e inferência – além de cálculos triviais. São merecidíssimos os aplausos à minoria de nossos alunos capazes de resolver os problemas difíceis das olimpíadas. Mas nosso problema real continua a ser a vasta maioria, incapaz de entender os mais fáceis.

por Helio Gurovitz
 
FONTE:http://g1.globo.com
 

Étienne Ghys: “Sem matemática não há como desenvolver um país”

O premiado pesquisador francês afirma que o Brasil precisa ter mais engenheiros e profissionais com raciocínio matemático para alcançar o desenvolvimento

“A matemática virou algo elitista, usado 
para separar as pessoas. Deveria ser o oposto” 
(Foto: Época)
O matemático francês Étienne Ghys, de 63 anos, é um caso raro de pesquisador com múltiplos interesses. Ele gosta de mergulhar na matemática pura, um tipo de raciocínio abstrato, que explora conceitos sem ligação com a aplicação prática aparente e de difícil entendimento para os não iniciados. Mas ele gosta também de explorar formas de explicar conceitos matemáticos para os leigos – algo raro entre cientistas como ele. Seu interesse em popularizar conceitos matemáticos é tal que roteirizou e dirigiu duas séries de animação, com nove capítulos cada uma, para explicar a Quarta Dimensão e a Teoria do Caos para crianças. Nas palestras que profere em escolas primárias, explora a relação da matemática com a moda, o futebol e outros temas. Seus esforços para transformar a matemática num assunto pop lhe rendeu um prêmio do Instituto Clay, dos Estados Unidos. Étienne Ghys é apaixonado pelo Brasil. Em 30 anos, morou seis vezes no país, por pequenos períodos, sempre trabalhando em projetos pelo Instituto de Matemática Pura e Aplicada (Impa), no Rio de Janeiro. Hoje, ele dirige a unidade de matemática pura e aplicada da Escola Normal Superior de Lyon, na França. Acontece, até o dia 23, domingo, a Olimpíada Internacional de Matemática. É a primeira vez que o país sedia a edição global do evento. Para o matemático, eventos como esse são essenciais para a divulgação do tema entre os estudantes da educação básica.

ÉPOCA – Uma pesquisa mostrou que áreas ligadas à matemática respondem por 16% do PIB e por 10% das vagas de emprego no Reino Unido. O que a propagação da matemática pode fazer por um país como o Brasil?
Étienne Ghys – Esse tipo de levantamento faz um retrato muito parcial porque elege os tipos de atividade que parecem obviamente ligados à matemática – e ainda assim tenho minhas dúvidas sobre quanto são confiáveis. O aprendizado da matemática consiste no desenvolvimento do pensamento matemático, não se trata de aprender a fazer contas. Um país que investe no bom ensino de matemática terá o impacto dessa ação em diversas áreas de atividade: nas artes, na literatura, no governo. Sem matemática não há como desenvolver um país. O melhor exemplo, para mim, de um país com efeito difuso da matemática é o meu país depois da Revolução Francesa.

ÉPOCA – O senhor pode explicar?
Ghys – Napoleão Bonaparte entendeu que a reorganização da sociedade, depois da revolução, deveria se dar a partir da matemática. Antes da revolução, matemáticos eram pessoas isoladas que faziam matemática pelo prazer, demonstrando teoremas pouco úteis. Depois da revolução, a matemática virou útil e passou a ser valorizada e incentivada para além do conhecimento abstrato. A matemática foi usada para formar engenheiros, professores universitários e o próprio sistema pedagógico francês. Nessa época, foram criadas escolas famosas como a Politécnica e a Escola Normal de Educação Superior com o objetivo de trazer para Paris os melhores alunos da França para estudar com os melhores professores. Esses alunos voltavam, então, para o lugar deles para disseminar o que tinham estudado. Essa ideia foi uma ferramenta muito importante para o desenvolvimento da ciência na França. Por isso, a matemática francesa do século XIX é muito melhor que a matemática inglesa e italiana. A forma de exercer o poder político na França foi toda baseada na matemática.

ÉPOCA – Quais são os exemplos disso?
Ghys – Napoleão Bonaparte gostava muito de matemática. Existe até um teorema de Napoleão. Alguns historiadores suspeitam que ele tenha roubado esse teorema num dos saques que fez na Itália, durante a guerra. É uma polêmica divertida. Mas o fato é que Napoleão tinha a matemática em alta conta. Entre seus amigos estavam os maiores matemáticos da história, como Pierre-Simon Laplace, Gaspard Monge e Joseph-Louis Lagrange. Esses grandes matemáticos influenciaram diretamente a forma de organizar a nascente república francesa. Numa assembleia nacional, quantos deputados são necessários, como chegar ao número que dará representatividade justa às diferentes regiões do país? Essa definição pode variar de dez pessoas a 10 mil. Foram testados diversos modelos, com inúmeras variantes, para chegar ao formato que melhor atenderia aos interesses da maioria. A matemática foi tão importante para a organização política francesa que o filósofo e matemático marquês de Condorcet escreveu muitos livros sobre como tomar decisões políticas. Seus trabalhos discutem profundamente sistemas de votação baseados em proporcionalidade ou maioria. Esses livros foram fundamentais na democracia – não só a francesa. Até aqui no Brasil eles são usados.

ÉPOCA – Com base nessa experiência, o senhor acha que um bom governo é um governo matemático?
Ghys – O filósofo Platão fez essa afirmação. Em seu livro A cidade ideal, o rei é um matemático. Quando se governa com o olhar matemático, há menos chances de cometer injustiças. É claro que, se o governante não se importa com isso, tanto faz. Mas, de outra forma, a concepção matemática pode ajudar a fazer mais para um maior número de pessoas. Tome como exemplo o aplicativo de trânsito Waze. Ele é um sistema matemático dinâmico usado para ajudar o indivíduo a achar qual é o melhor caminho. Ele não tenta resolver o problema de verdade. O problema de verdade é como ter um trânsito melhor para todos. O programa poderia ajudar nessa resposta se calculasse a redistribuição global do trânsito. Nesse modelo, talvez para você o caminho ficasse cinco minutos mais longo, mas, em contrapartida, essa mudança significaria uma hora a menos de trânsito para muito mais gente. Ele seria um sistema melhor para a comunidade – e isso beneficiaria o indivíduo muito mais do que ocorre com o modelo atual.

ÉPOCA – A matemática brasileira tem as piores notas do mundo. O último levantamento global mostra que as crianças de 15 anos de hoje sabem menos matemática do que sabiam as de 2007. Como mudar esse quadro?
Ghys – Esse é um assunto muito sério porque o Brasil precisa muito da matemática. O país precisa de mais engenheiros e precisa se beneficiar do raciocínio matemático para seu desenvolvimento econômico. Para isso ocorrer, é preciso mexer com os professores. Eles fazem a diferença para o bem e para o mal. É preciso fazer duas coisas essenciais: em primeiro lugar, melhorar o salário dos professores. Eles têm de ganhar para ter uma vida digna, em que possam se dedicar com o mínimo de tranquilidade ao que fazem. Outro ponto importante é melhorar a formação dos professores. Para isso é importante criar uma conexão entre os pesquisadores e os professores da educação básica. No Impa, isso já começou. Mas não é fácil. Há muita gente contra isso. A academia em geral não gosta de trabalhar com a sala de aula básica.

ÉPOCA – Por que há essa resistência por parte da academia? Há preconceito contra a educação básica?
Ghys – Não digo que seja preconceito. Acho que é um problema relacionado a uma tradição muito antiga e arraigada. Quando eu era um jovem matemático na França, minha promoção só dependia da qualidade de minha pesquisa, dos artigos publicados, dos livros publicados. Qualquer trabalho que eu produzisse em escolas, com alunos, com didática, não contava. Não havia valorização fora da área da pesquisa. As coisas estão mudando. Eu tenho dois alunos de doutorado em Lyon que trabalham em suas teses com a eficácia da divulgação da matemática. Há 20 anos, seria impossível a academia aceitar a divulgação como um objeto de pesquisa de doutorado. Então, essa área começa a ser valorizada, mas ainda há resistência.

ÉPOCA – De onde vem a má fama da matemática entre os estudantes?
Ghys – O problema é que a matemática do ensino básico se desconectou da vida real. Esse é um problema da maioria das culturas. Os professores colocam os meninos para fazer contas e raciocínios abstratos que não têm nada a ver com a vida deles. É uma pena porque a matemática está em todo lugar e os professores deveriam ensinar mostrando isso. Isso é culpa minha, é culpa de Napoleão, é culpa dos matemáticos do Impa, é uma culpa coletiva. Infelizmente, a matemática se desconectou do resto do mundo, por causa do elitismo. Ela virou um teste de inteligência, usado para separar as pessoas.

ÉPOCA – Por que há tão poucas mulheres matemáticas?
Ghys – Olha, esse é um problema enorme! Já vi estudos sociológicos e de psicologia que sugerem que culturalmente pregamos na cabeça de meninos e meninas que matemática é uma área masculina. Parece que os professores, sem saber, estigmatizam desde muito cedo a garotada. Pela experiência que tenho de sala de aula, essa explicação faz sentido para mim. Na França, houve um teste nas escolas primárias com geometria. Os meninos tiveram desempenho melhor do que as meninas. O mesmo teste foi dado em outras escolas, mas desta vez os professores deram nome de teste de desenho. Então, as meninas se saíram melhor. Na França, já houve campanhas para atrair meninas para a matemática. Não deu certo. Sinceramente, não sei como solucionar essa questão. Um possível começo é todos olharmos para esse problema. Precisamos de mais mulheres na matemática. 
 
FLÁVIA YURI OSHIMA  
 
FONTE: http://epoca.globo.com

Sete competências para as escolas e faculdades se adaptarem ao novo mercado profissional

O mercado profissional vem mudando e a reforma trabalhista aprovada em 12 de julho, em muitos aspectos, só registra o que já estava acontecendo, de modo informal. Questões ideológicas à parte (sem dúvida existem, mas não é objetivo deste artigo discuti-las), é fato que há novas competências que escolas, famílias e universidades deveriam desenvolver nos estudantes, com vistas a um bom desempenho no mundo do trabalho dos próximos anos.

Veja abaixo sete competências que estão se tornando cada vez mais essenciais aos atuais e futuros profissionais:

Habilidade de negociação. Os acordos entre prestadores de serviços e contratantes poderão se sobrepor à própria legislação trabalhista. Isso vai requerer habilidade para chegar a consensos por meio do diálogo, traquejo no relacionamento interpessoal e prática para resolver conflitos, buscando soluções em que as duas partes se sintam confortáveis. Isso envolve também aspectos como senso de oportunidade, persuasão e ética.

Foco em resultados. Entregar o que lhe é confiado no prazo e com qualidade, com o menor gasto de recursos e a maior produtividade. Isso implica, entre outros aspectos, manter a concentração e não perder tempo com atividades que o distanciam de suas principais metas.

Autonomia, autodisciplina e processos de trabalho. O home office ou teletrabalho, regulamentado pela reforma trabalhista, é uma tendência apreciada tanto pelas empresas como pelos seus colaboradores, por aliar economia de recursos com qualidade de vida no trabalho. Para funcionar bem, requer organização, capacidade de gestão do tempo, planejamento do trabalho a partir de processos e bastante autocontrole.

Capacidade comercial e de marketing pessoal. Profissionais que prestam serviços têm passado a trabalhar por projetos e até mesmo para mais de uma empresa. Irão sobressair aqueles que souberem divulgar bem os seus talentos e montar uma carteira de clientes fiéis.

Flexibilidade e resiliência. O mercado de trabalho se tornou volátil e é comum que, ao longo do tempo, o profissional acabe assumindo novas atribuições, diferentes daquelas para as quais foi inicialmente contratado. Estar aberto a essa possibilidade, assim como administrar as próprias emoções ao lidar com situações adversas e com mudanças, são fortes diferenciais.

Disposição para trabalhar em grupo e respeitar diferenças. As empresas costumam montar equipes multidisciplinares e estas podem variar de acordo com cada projeto. Isso requer capacidade de ouvir os diversos pontos de vista e de exercer diferentes posições nos grupos – ora podemos ser o líder, ora coadjuvantes ou colaboradores. Conviver bem com as diferenças de cultura, raça, crença, posição política é essencial. Ter uma atitude inclusiva é ainda melhor.

Capacidade de aprender continuamente e se reinventar. Num mundo marcado por inovações tecnológicas e pela rapidez das mudanças, os conhecimentos se tornam obsoletos ou insuficientes em pouco tempo. Algumas profissões deixaram de existir e outras se tornaram completamente diferentes nos últimos anos. Mesmo sem um professor do lado ou sem frequentar cursos formais, os profissionais deverão ter habilidade para aprender o tempo todo, mantendo-se atualizados por meio de processos de educação continuada.

por Andrea Ramal

FONTE: http://g1.globo.com

Programa Nacional do Livro Didático terá ciclo de quatro anos


A partir de 2019, o Programa Nacional do Livro e do Material Didático (PNLD) terá ciclos de quatro anos, e não mais de três, como é atualmente. A mudança está em um decreto presidencial publicado hoje (19), que traz as novas regras para o programa.

Anteriormente, o governo havia proposto aumentar o ciclo para seis anos. Segundo o Ministério da Educação (MEC), a mudança para um ciclo ainda maior está sendo estudada junto ao Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea). Para o MEC, a escala da compra por um período maior possibilita uma economia na aquisição dos livros didáticos.

O primeiro edital com as novas regras será publicado nos próximos dias, para a compra e distribuição, em 2019, de material voltado para a educação infantil e os anos iniciais do ensino fundamental.

Livros consumíveis

Outra mudança é que, a partir de 2019, os livros dos anos iniciais passarão a ser consumíveis, ou seja, todos os livros de 1º ao 5º anos passarão a ser do aluno, não precisando ser devolvidos ao final do ano letivo. Segundo o MEC, a mudança traz autonomia para o aluno diante do livro, já que ele poderá usar o material da melhor maneira, rabiscando e fazendo anotações.

Os professores da educação infantil e de educação física passarão a compor o PNLD, recebendo livros pela primeira vez. O novo PNLD também disponibilizará softwares (programas de computador) e jogos educacionais e outros materiais de apoio à prática pedagógica.

Avaliação

Segundo o decreto publicado hoje, a avaliação das obras inscritas no PNLD será feita por equipes compostas por especialistas das diferentes áreas do conhecimento, professores da educação básica e do ensino superior de instituições públicas e privadas, coordenadas pelo Ministério da Educação. Atualmente, a avaliação é feita pelas universidades públicas.

Já a comissão técnica, que é o corpo de especialistas pedagógicos do MEC que acompanha todo o processo, passa a ser escolhida a partir de indicações de entidades como os conselhos nacionais de Educação (CNE) e de Secretários de Educação (Consed), da União Nacional dos Dirigentes Municipais de Educação (Undime), da Associação Nacional dos Dirigentes das Instituições Federais de Ensino Superior no Brasil (Andifes) e do Conselho Nacional das Instituições da Rede Federal de Educação Profissional, Científica e Tecnológica (Conif), entre outras.
 
Edição: Nádia Franco
Sabrina Craide – Repórter da Agência Brasil 
FONTE: http://agenciabrasil.ebc.com.br

Os impactos das reformas do governo Temer para os educadores

Duas das três principais reformas econômicas pretendidas pelo governo de Michel Temer foram sancionadas nestes últimos meses: a Lei da Terceirização e a reforma trabalhista. As revisões na Previdência, por enquanto, seguem estacionadas, mas devem ser votadas ainda este ano.
Com graves impactos para todos os brasileiros, as medidas também trazem prejuízos intrínsecos para a categoria dos professores que, vale lembrar, recebe em média o equivalente a metade (52,5%) do salário de outros profissionais que têm nível superior.

Para Maria Izabel Azevedo Noronha, presidente do Sindicato dos Professores do Ensino Oficial do Estado de São Paulo (APEOESP), mesmo que a reforma da Previdência não seja aprovada, as outras duas medidas já são motivo suficiente para preocupação.

“Hoje já temos professores desmotivados e jovens que não querem seguir licenciatura ou fazer Pedagogia por conta da desvalorização da carreira. O resultado dessas reformas será falta de professores e a consequente aceitação do notório saber”, diz.

Nesta linha, qualquer profissional do mercado poderá dar aula — um engenheiro, por exemplo, poderá lecionar Matemática nas escolas, mesmo sem experiência pedagógica, precarizando a relação ensino-aprendizagem.

“A escola não passa só conteúdo, forma seres humanos. Sem a ciência da educação, não adianta ter todo o conhecimento do mundo. A qualidade do ensino só tende a piorar”, prevê.

Ao mesmo tempo em que corta investimentos, o governo propõe uma reforma no Ensino Médio com ampliação da carga horária

Crédito: Valter Campanato/Agência Brasil

Carlos Eduardo Sanches, ex-presidente da União Nacional dos Dirigentes Municipais de Educação (Undime), lembra ainda que o magistério não é uma missão, como muitas vezes aparece equivocadamente no imaginário da sociedade. “É uma profissão e como outra qualquer merece seus direitos e benefícios”.

Para Sanches, a reforma trabalhista e a terceirização devem aumentar o número de pedidos de afastamento e readaptação. “Muitos não suportam mais a rotina, algo que tem crescido em todo o Brasil. Os que não pedem readaptação, apresentam doenças e patologias que em breve vão inviabilizar que continuem trabalhando”.

Uma pesquisa realizada pela Universidade de Brasília (UnB) estima que mais de 300 mil docentes, isto é, 15% dos professores da Educação Básica pública apresentam a síndrome de Burnout, sofrimento físico e emocional causado por estresse laboral crônico.

No entendimento de Sanches, a sanção destas duas medidas favorece também a aprovação da reforma da Previdência que, se aprovada, agrava a perspectiva docente.

Por que as mulheres serão mais afetadas?

As mulheres compõem 81,5% do total de professores da Educação Básica do País. Em todos os níveis de ensino dessa etapa, com exceção da educação profissional, elas são a maioria lecionando.

Maria Izabel, da APEOESP, alerta que os prejuízos devem ser ainda maiores para as mulheres, tanto ao permitir que grávidas trabalhem em locais insalubres, quanto pela dupla jornada que enfrentam, um adicional de 20 a 25 horas semanais a mais dedicados à casa e aos filhos.

“No final do dia, depois de trabalhar em uma, duas escolas, elas ainda têm as tarefas domésticas e os filhos para cuidar. Em um trabalho precário e sem perspectiva de aposentadoria, não há saúde que resista”, diz Maria Izabel.

A legislação entendeu, no decorrer da história, que profissionais do magistério têm direito à aposentadoria especial por estarem expostos a trabalhos mais desgastantes. Essa regra é válida para quem contribui pelo regime geral da Previdência, caso da maioria dos educadores da rede particular e pública.

“Vamos provocar um desequilíbrio entre valores arrecadados em contribuição previdenciária e os valores gastos com benefícios de auxílio-doença. Cada vez mais professores vão necessitar disso por causa da precarização que essas reformas trazem”, explica Sanches, acrescentando que o Brasil, ao invés de discutir reforma tributária e desoneração real da folha de pagamento, propõe reformas e medidas lesivas à sociedade para contornar a crise econômica. Entre elas, a PEC do Teto dos Gastos Públicos, aprovada em 2016, que reduziu, dentre outros, os investimentos em educação e saúde pelos próximos 20 anos.

Salomão Ximenes, professor da Universidade Federal do ABC (UFABC), vê com preocupação este cenário. “Vamos retomar uma situação em que cada estado e município formula sua própria estrutura de remuneração dos magistérios, como era antes da Lei Nacional do Piso do Magistério, quando a desigualdade chegava ao ponto de termos professores recebendo menos do que o piso”.

Outras reformulações que ameaçam a carreira docente, conforme aponta Ximenes, estão na terceirização da oferta escolar via organizações sociais, que atingem professores concursado pelos estados e municípios, e o crescente controle do trabalho docente, principalmente por meio do Ministério da Educação. “Basta ver a Base Nacional Comum Curricular e a reformulação do Pacto Nacional pela Alfabetização na Idade Certa (Pnaic), que trazem menos liberdade de atuação política-pedagógica”.
As reformas de Temer e a qualidade do ensino

No entanto, o impacto das reformas vai além das consequências individuais para os educadores: afeta a qualidade da educação como um todo. “As reformas vão na contramão da Constituição Federal e do Plano Nacional de Educação (PNE) no que diz respeito à oferta e qualidade da educação, valorização do professor, planos de carreira e gestão democrática”, explica Carlos Sanches. “O processo de contratação docente vai priorizar o menor preço e não a qualidade”, acrescenta.

Exemplos já despontam. Em abril deste ano, o município de Angelina (SC) realizou um pregão presencial para contratar um professor de Educação Física pelo menor valor.


Além disso, é importante ressaltar que, ao mesmo tempo em que corta investimentos, o governo propõe uma reforma no Ensino Médio com ampliação da carga horária. Para Maria Izabel Noronha, a conta não fecha. “Questiono se as escolas terão como pagar por mais horas de trabalho dos educadores. Se não tiverem, os professores vão ter procurar mais aulas em outras redes, diminuindo o tempo que passa em cada escola, para poder se dedicar às turmas, ao projeto político pedagógico da unidade, de criar laços, que são importantes para a aprendizagem”.

A análise de Salomão Ximenes divide o mesmo receio: “todas essas reformas vão no sentido de garantir tão somente o direito à aprender português, matemática, ciências e outros conteúdos que vão fazer passar no vestibular, que só exigem memorização dos alunos, um trabalho mecânico de seguir um roteiro pré-estabelecido”.

Para Pilar Lacerda, diretora da Fundação SM, a rapidez e ausência de diálogo que caracterizam tais reformas reiteram sua ilegitimidade, trazendo efeitos não só para a educação, mas para a sociedade como um todo. “Os setores mais frágeis serão os mais impactados, reforçando as desigualdades já existentes no Brasil. E, claro, isso trará consequências inegáveis para o que acontece em sala de aula”, conclui.
 
Os direitos do professor ameaçados: ponto a ponto

A reforma trabalhista e a terceirização irrestrita, ambas sancionadas, trazem diversos prejuízos para os trabalhadores brasileiros. Mas como essas novas legislações afetam os professores especificamente?

Especialistas apontam as principais vulnerabilidades a que estarão submetidos os professores:
Professores poderão ser contratados por períodos curtos, sem garantia de férias remuneradas e 13º salário. Também facilita demissões e a alta rotatividade de emprego;
Fim do imposto sindical: enfraquece a representação sindical e ameaça direitos adquiridos, como a semestralidade, plano de saúde, a hora atividade e a gratuidade de bolsas para filhos de professores;
 
Negociado sobre o legislado: o que vai valer nas negociações salariais é o acordo fechado entre patrões e empregados, apesar das determinações da CLT;
Horas extras poderão ser substituídas por banco de horas mediante negociação: a escola não será mais obrigada a remunerar financeiramente os trabalhos extras;
Trabalho intermitente: professor ou professora fica à disposição da escola 24 horas. No entanto, o docente só será remunerado pelo período que trabalhou. Nesse caso, a escola ainda tem exclusividade para que o educador não exerça suas atividades profissionais em outras instituições;
Terceirização irrestrita: os professores e professoras poderão ser contratados como prestadores de serviço, tendo que abrir firma para dar nota fiscal à escola e pagar impostos como microempresários, sem direito a férias, 13º, PLR ou qualquer outro benefício empregatício;
Home office: o trabalho em casa entra na legislação, sendo desta forma, regulamentado o Ensino à Distância (EAD).
 

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segunda-feira, 10 de julho de 2017

O desafio de educar para um futuro digital e mutável

Mais da metade dos alunos de hoje seguirão carreiras ainda inexistentes e difíceis de prever. É o que revela um estudo feito em 2016 pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), indicando que 65% das crianças assumirão profissões que começam a se desenhar nos dias atuais.

Mas que carreiras “do futuro” são essas? Segundo os especialistas ouvidos pelo Centro de Referência em Educação Integral, devem persistir as profissões que requerem subjetividade e produção de sentido e deixam de existir aquelas que exigem somente a reprodução de padrões ou observação rápida e precisa de uma massa de dados. Estas últimas devem ser substituídas por tecnologias que desempenham tais funções de forma mais rápida, eficiente e barata.

Nesta perspectiva, mais autonomia, engajamento com as tecnologias digitais, inteligência artificial, cultura maker, compartilhamento de artefatos, processos e serviços também serão características valorizadas neste contexto futuro.

Devem persistir as profissões que requerem subjetividade e produção de sentido e deixam de existir aquelas que exigem somente a reprodução de padrões

Das crianças será exigido flexibilidade para adaptar-se a mudanças, mas também firmeza para perseguir objetivos em meio a um ambiente em constante transformação. Soma-se a isso proatividade, trabalhar de forma colaborativa, criatividade, resolução rápida de problemas, pensamento críticoe a busca autônoma por conhecimento.
Educando para a autonomia

Se a escola já enfrenta, nos dias atuais, dificuldades para formar adolescentes preparados para o mercado de trabalho, formá-los para uma realidade que ainda não existe se mostra ainda mais desafiador — porém, possível. É o que afirma Luciano Meira, professor da Universidade Federal de Pernambuco e sócio-fundador da Joy Street, organização que se propõe a criar soluções em tecnologias educacionais.

“O mundo inteiro, não só o Brasil, tem escolas que servem a padrões industriais do século XX, na melhor das hipóteses. Mas a mudança já tem emergido de experiências locais em algumas instituições, inclusive, brasileiras”, diz Meira.

Essa mudança, explica, passa pela percepção de que é necessário construir conhecimento e não apenas memorizar conteúdos, valorizando-se a formação integral do indivíduo em diferentes aspectos: imaginação, argumentação, design, habilidades sociais, emocionais, culturais e físicas.

“A aula é a falência da escola. Precisamos deixar mais explícito os processos de conhecimento e sentido, não os saberes em si. Queremos que as crianças sejam capazes de produção autoral, que argumentem”, explica o professor. 

Ensinar matemática não é simples. Ensinar flexibilidade, proatividade, e outros conceitos abstratos, tampouco. Mas já existem propostas que começam a solucionar esses caminhos tendo como foco a ampliação da participação dos alunos e de outros atores da escola.

É necessário construir conhecimento e não apenas memorizar conteúdos, valorizando-se a formação integral do indivíduo

Anna Penido, diretora do Instituto Inspirare, lembra que a educação é uma tarefa coletiva e que, portanto, deve contemplar alunos, professores, diretores, funcionários e familiares na sua construção e inovação. Essa transição, no entanto, deve ser cautelosa.

“O processo de mudança tem que ser feito de maneira acolhedora e confortável, para que mesmo com toda essa incerteza, angústia e ansiedade, eles se sintam seguros para lidar com o que está por vir, mesmo sem saber exatamente o que é”, diz.
A escola deve ajudar o aluno a construir sua própria trajetória de vida e a escolher suas metas(Crédito: Shutterstock)

Formando professores inovadores
Outro pilar fundamental para alcançar estas transformações é o docente. Além das questões de condição de trabalho precárias, má remuneração, pouca valorização e sobrecarga de tarefas, a formação dos professores também precisa ser revista e readequada ao que a educação contemporânea está demandando.

É preciso considerar que os professores atuais aprenderam e estão familiarizados a outro sistema de ensino e precisam lidar com uma geração que nasceu conectada e com outros paradigmas.

“Temos que repensar a universidade, as licenciaturas, a formação continuada para desenhar uma educação centrada na construção da relação aluno-professor”, afirma Luciano Meira, acrescentando que, em sua experiência com formação de professores, nunca encontrou resistência por parte deles em aprender coisas novas e inovar. 

“De maneira espelhada, os professores vivem hoje o que as crianças vão viver em breve. Os docentes estão sendo pressionados a mudar a maneira como exercem sua profissão de acordo com o novo perfil dos alunos e sociedade”. Essa proximidade de experiências abre uma oportunidade de aproximação entre eles e os alunos.

Anna Penido concorda. Para ela, os docentes estão vivendo uma experiência hoje que certamente seus alunos também viverão. “E se o professor está se sentindo angustiado, ele pode pensar ‘como faço para ajudá-los a não viverem essa angústia? Se eu preciso rever minhas habilidades, quais são as que eles precisarão ter?’ Quanto mais empático for esse processo, mais sucesso teremos”, diz.

A especialista sugere ainda algumas práticas que já podem começar a serem aplicadas pelas escolas neste processo de reinvenção:
Currículo: A proposta não é deixar o conteúdo tradicional de fora, mas ele não pode ser o foco. Tem que ser um conteúdo que ajude o aluno ao longo de sua trajetória a desenvolver seus projetos de vida, a projetar suas metas.
Práticas pedagógicas: Para estimular outras competências, o aluno precisa aprender fazendo, ponto a mão na massa, porque a criança será apresentada a algo que nunca fez, vão surgir problemas que nunca enfrentou, e vai ter que buscar ajuda, perseverar, descobrir quais conhecimentos precisa aprender para aplicar naquele desafio, a trabalhar em grupo. Isso é algo mais próximo da realidade fora da escola.
Infraestrutura: A sala de aula tradicional não funciona mais. Os espaços têm que favorecer as trocas e que as práticas aconteçam dentro de um modelo que não é mais o professor falando, o aluno escutando e o diretor decidindo.
Gestão escolar: A direção precisa preparar alunos para tomarem decisões e participarem ativamente dos espaços em que estiverem inseridos, seja na comunidade, no trabalho, na escola. Eles vão precisar exercitar isso desde a escola, porque é a primeira comunidade da qual eles fazem parte para além da sua família. Precisam escutar, argumentar, respeitar e lidar com a diversidade e a divergência.


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A educação no Brasil é falha desde o começo



Educação dos jesuítas, escolha do método Lancaster e outros fatores históricos levaram à má qualidade atual do ensino brasileiro

Formalismo pedagógico, dogmático e religioso dos jesuítas educou a população com baixa qualidade moral e intelectual



O suíço Johann Heinrich Pestalozzi, estudado nos nossos últimos textos sobre educação, viveu de 1746 a 1827. O inglês Joseph Lancaster viveu de 1778 a 1838.

Apesar dos períodos semelhantes e de ambos terem sido grandes pedagogos adeptos do ensino mútuo, os seus métodos têm diferenças marcantes e o entendimento delas é crucial para o aperfeiçoamento da educação brasileira.

Com o objetivo de organizar, difundir a educação pública e combater a falta de professores, foi adotado no País, em 1823, com apoio de Dom Pedro I e dos membros da Assembleia Geral Legislativa, o método Lancaster.

Tal método, por ser centralmente pautado no ensino mútuo, reduziria os custos da educação pública e permitiria difundi-la sem necessidade de grande número de educadores formados.

Em 15 de outubro de 1827 foi publicada a lei que criou as escolas primárias, por meio da qual se reafirmou a adoção do método Lancaster. A partir de 1847, ele foi sendo substituído nas províncias pelo método simultâneo, o mais comum hoje, pois, além de ter suas falhas, foi mal aplicado no Brasil.

O ensino mútuo consiste no uso de monitores escolhidos entre os próprios alunos, tornando possível que diferentes classes sejam criadas com a existência de um único professor.

Apesar de ter sido muito atribuído a Lancaster, Pestalozzi aplicou esse método na sua experiência em Stans, na Suíça, em 1798, mesmo ano em que o inglês abriu sua escola, tendo-o feito um pouco antes do que ele e depois novamente em Yverdon por volta de 1817, porém comungando-o com outros métodos. 

Ao se referir ao ensino mútuo, Pestalozzi afirma o seguinte em Como Gertrudes ensina os seus filhos: “Dele me servi em Stans, numa época em que não se falava nem de Bell, nem de Lancaster”. Por sua vez, o pedagogo inglês publicou em 1803, aos 25 anos, a sua obra Improvents in Education (Aperfeiçoamentos na Educação), na qual apresentava o método Lancaster. 

Na verdade, Andrew Bell aplicou o ensino mútuo ainda antes do que os dois, pois já em 1796 publicou obra na qual explicava o sistema que criou a partir de sua experiência na Índia.

Além dos benefícios econômicos, o ensino mútuo, por meio de monitores, tem diversas outras vantagens, a exemplo de valorizar os melhores alunos, estimulando-os a serem bons o bastante para receberem essa posição de destaque; permitir que, além de professores adultos, os alunos possam ser ensinados por jovens com linguagem e modos semelhantes, levando a outro tipo de interação; e criar uma maior homogeneidade na aplicação do método por ter como monitores alunos formados na própria escola. 

O problema é que Lancaster não comungava o ensino mútuo com outros métodos, como o simultâneo e o individual, heterogeneidade que foi usada por Pestalozzi em Yverdon.

Todo o método estava pautado no ensino mútuo pela possibilidade que ele ensejava de educar centenas de crianças com apenas poucos professores, como o inglês fez em sua escola.

A utilização de forma sistematizada, inteligente, dos três métodos (simultâneo, mútuo e individual), tirando o melhor de cada um, parece um bom caminho.

É possível aplicar o ensino mútuo, por exemplo, no caso de alunos que necessitam de reforço e em certas atividades específicas em sala de aula, o que já é feito por algumas escolas.

O livro de Lancaster se inicia com uma defesa da difusão da educação pública.

Fortemente pautado em ideais cristãos, como Quaker que era, prega brilhantemente a igualdade, a caridade, a mútua condescendência, a união e o amor entre as pessoas, independentemente da sua classe social, do seu partido ou do seu credo.

Ele se aproxima, portanto, de Pestalozzi, que sofreu ataques por não ser religioso, apesar de um fervoroso defensor da filosofia moral cristã pregada por Lancaster.

Este se afasta de Bell, que pregava um método com tom religioso acentuado, o que os levou a travar uma disputa que levou Lancaster à falência e à prisão.

Essa visão da educação carregada de valores morais, mas contra o sectarismo religioso e dogmatismos era – e ainda é até hoje, mesmo que num cenário distinto – muito importante para o Brasil, cujo povo havia sido educado basicamente pelos jesuítas desde sua chegada à Bahia em 1549 até sua expulsão em 1759.

Os jesuítas, a despeito de bons trabalhos missionários que fizeram, em geral pregavam os dogmas da Igreja Católica com muito fervor e faziam críticas aos demais credos, sobretudo aos Protestantes.

O método dos jesuítas ainda era o escolástico medieval, num período em que a Europa já quebrava as amarras da Idade Média e ingressava pela Idade Moderna com grandes descobertas na ciência e na filosofia.

De certa forma, é como se, nos séculos XVII e XVIII, enquanto a Europa vivia o Iluminismo, o Brasil, “descoberto” há pouco tempo, estivesse vivendo a sua Idade Média.

Não é a toa que o país ainda tenha inúmeros déficits a sanar em relação aos mais desenvolvidos. Há fatores históricos claros que definem as instituições e políticas públicas de hoje, inclusa aí a educação. Entender esses fatores é primordial para sanar os déficits e tentar assumir a vanguarda. 

Além de destruir a maior parte da cultura local, os jesuítas implantaram o formalismo pedagógico dogmático-religioso, que teve seus méritos por educar parte da população do país, mas, em regra, com baixa qualidade moral e intelectual.

A despeito das exceções de missionários com grandes valores morais que estiveram por estas terras, como o padre português Antônio Vieira e o espanhol Fernando Miramez de Olivídeo, emissário do rei Filipe IV, que, apesar de católicos, não eram jesuítas e defenderam os direitos dos indígenas e dos negros; boa parte dos que se tornaram educadores no Brasil tinham ou passaram a ter, após aqui chegar, o objetivo de consolidar o império dos seus países na colônia, acumulando riquezas e regalias.

Assim o povo brasileiro foi formado até o final do século XVIII, ao longo de mais de 200 anos, e isso explica alguns elementos da cultura observados até hoje.

Pode-se dizer que pelo formalismo, pelo caráter manipulativo e dogmático, a educação brasileira do Brasil colônia foi o inverso daquilo pregado por Rousseau, Pestalozzi e Rivail, como visto em textos anteriores.

Após a expulsão dos jesuítas pelo Marquês de Pombal, houve interessantes reformas na educação portuguesa, que ficaram conhecidas como pombalinas, mas que não repercutiram muito no Brasil por falta de professores e outros aspectos. Buscou-se uma educação mais útil, aplicada, prática, porém não é o que se vê, em regra, até hoje.

A adoção do método Lancaster, apesar dos seus méritos em termos de abrangência, reverteu aquela filosofia da reforma pombalina, pois ele é centrado na memorização e na disciplina, ainda que o pedagogo inglês fosse contrário, como Pestalozzi, aos castigos corporais, comuns à época.

O método do suíço conseguia obter a ordem pelo amor, pelo respeito, e, apesar de valorizar o desenvolvimento da memória, como uma das faculdades naturais, o seu ensino estava muito mais pautado na experiência e no raciocínio lógico.

É possível notar uma forte preocupação de Lancaster com a ordem, que se superpôs, no seu método educacional, ao ideal do amor que ele mesmo pregava e, de fato, realizou em nível até acima média. Pestalozzi se focava no fortalecimento dos laços de fraternidade entre o mestre e os alunos, assim como entre estes, um dos principais pilares do seu método.

Ainda que o ensino mútuo tenha sido substituído no Brasil cerca de 30 anos depois pelo simultâneo, tendo em vista o seu fracasso, pois, dentre outros problemas ainda atuais, faltavam prédios adequados e professores qualificados para aplicar o método; a educação continuou marcada pela influência jesuíta e de Lancaster, revelando-se pautada na memorização e na imposição da ordem por meio de castigos.

Tanto sob o ângulo intelectual quanto moral, a média da educação brasileira é muito pobre, porém a história poderia ter sido outra se já tivesse sido aplicado o método Pestalozzi, pautado no desenvolvimento de faculdade naturais (capacidades) por meio de um ensino bastante prático e com forte carga moral transmitida por meio do exemplo, sem aplicação de punições.

Não se pode voltar atrás e mudar o passado, mas é possível mudar o presente e fazer um novo futuro.

por Marcos de Aguiar Villas-Bôas e Tânia Rêgo/Agência Brasil

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